Winds of change

Como alguns já sabem…

Estou com um tumor, na base da coluna.

Minha vida está de ponta cabeça.
Voltei de São Paulo para Niterói, terminei com minha ex-namorada, e senti mais dores do que acreditava ser humanamente possível se sentir.
Numa escala de 0 à 10, onde zero é dor nenhuma e dez é significa desistir de viver, cheguei à 9. E permaneci em 9 por mais tempo que gostaria de lembrar.
Muitas pessoas temem a morte. Isto porque não sabem o que é dor de verdade. A morte é um consolo.
Sabe aquela dor de dar uma puta topada com o dedinho na quina do móvel? Pois é, eu gosto deste tipo de dor. Porque é o tipo de dor que dói para caramba, mas você sabe que aguentando ela vai passar.
A dor que senti, vem forte, e permanece forte. A noite inteira. E o dia seguinte também.

O tumor é benígno, e operável. Mas tem seu lado malígno, que é comprimir os nervos.


Meus pais, que são médicos, fizeram de tudo para ajudar. Meu pai chegou a passar um  sintético de morfina, e não ajudou.
Finalmente, uma combinação de corticóide com Amytril (que serve para aumentar o limiar da dor) tornou minha vida suportável.
Estávamos achando que a dor era por conta de uma lesão que eu tive, quando uma vez caí treinando Muay Thai.
Não consigo deita de barriga para cima, então ficava difícil fazer uma avaliação. Depois de me esforçar para engordar, e fazer fisioterapia, finalmente consegui ficar meio de lado e meio deitado de cotas, e fizemos o exame de imagem. Descobrimos o tumor.

Estão quase no final os preparativos para cirurgia.
Hoje farei o risco cirúrgico.
Só que há um porém…
Além de todos os riscos de uma cirurgia, há uma chance de eu perder o movimento das pernas. Não é uma chance muito grande, mas existe.
Não estou com medo, deste ano em diante acho que meu medo só será de sentir dor, mas estou apreensivo.

A primeira coisa que pensei quando soube do risco de não voltar a andar, foi que não poderia mais passear com meu cachorro. Me arrependo de não ter saído mais com ele.  A segunda foi que não alcançaria todas a minha estante de livros. Bem, ler ainda seria uma coisa que poderia fazer bastante. Difícil fazer o jogo do contente agora…

Sou ateu e cétivo. Então não acredito que promessas ou resoluções possam afetar o resultado dos eventos. Mas se tudo der certo, prometo que sou aproveitar melhor meu tempo.

Já estou fazendo por onde: investindo minha atenção à uma pessoa muito especial que tive a sorte de conhecer. Queria estar em condições melhores para ela. Cobrança minha mesmo, ela não faz nada além de me fazer sentir confortável. Mas eu espero que no futuro eu possa mostrar meu melhor lado, de qualquer forma.

Fico feliz que esta parte da minha vida esteja chegando ao fim, de um jeito ou de outro.
Tudo que pode ser feito, está sendo feito. Só resta esperar pelo melhor. E se tudo der certo…
meu cachorro vai adorar o novo eu.